MAREJADOS

Acho que todo mundo já se perguntou um dia, se todos enxergam as coisas da mesma maneira, se cores e formas são as mesmas para qualquer pessoa, assim como sabores, odores e as dores. Mas já se perguntou sobre quem era você quando viu alguma coisa?

Imagine que, sanado de um mau nato e incapacitante, tivesse acabado de abrir os olhos pela primeira vez em sua vida?

E se olhar uma segunda vez? Uma terceira? E se a visão for de olhos cheios d’água? Olhos marejados.

E se souber que é última coisa que você vai ver? Que terá os olhos fechados para sempre: Como você vai ver?

até debaixo d’água

O que fazer num dia de chuva?


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Uma vez, durante um workshop perguntei ao Izan Petterle se era comum voltar para casa de mãos vazias. E ouvi dele, meio incrédulo, que não. Que até debaixo de chuva ele havia ganhado prêmio com uma foto feita através do parabrisas do carro molhado.

Bem, a verdade é que choveu a beça nos últimos dias. Muitos dias! 9, 10, 12? Sei lá. Frio e chuva não encoraja ninguém a sair espontaneamente com a bolsa de equipamentos debaixo do braço. Mas, levantando a bandeira do “empresário bem sucedido anos 90” aqui no nosso meio, digo: É na crise que pode estar a oportunidade! Sim, oportunidade de buscar imagens inusitadas, fora do lugar comum. Fotografias com algum ineditismo e beleza fora da proteção do lindo céu azul ou da conveniente luz difusa dos dias nublados.

Dias feios e complicados os últimos, aqui no litoral paulista
Dias feios e complicados os últimos, aqui no litoral paulista

Mas foi no começo do mês de julho que marquei com um amigo de fotografar no interior do estado. Começo de julho é temporada de estiagem, frio de manhã e final de tarde, sol seco pelo dia todo. Mas calhou de chover. E bem embaixo do nosso nariz, na porta do chalé do hotel fazenda em que ficamos com a família brotaram alguns cogumelos. Laranja estridente sobre preto profundo! Belo contraste, poesia de cores.

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Não espero ganhar nenhum prêmio com essas imagens, mas dediquei um bom tempo a elas. Mergulhei prazerosamente nas possibilidades de composição, nas nuances de luz e cor que aqueles simples e ocasionais indivíduos, meros fungos que os fotógrafos abominam como pragas nas objetivas mal guardadas, me proporcionavam enquanto brincava de arranjar elementos no enquadramento ao mesmo tempo em que fugia da água que poderia danificar o equipamento.

Divertida manhã, de quem viajou para longe para buscar belas paisagens ensolaradas e se esqueceu da vida nesse microcosmo efêmero e corriqueiro, em pleno dia molhado.